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Uma família muito moderna.

Enteados.
A bem da verdade a língua portuguesa não foi simpática com este laço familiar. Nome sem muita doçura associada tal como tem a palavra "filho", com tamanha carga de afecto e responsabilidade. 
É injusto. Os enteados não devem ser menos importantes que os filhos. Devem e serão sempre especiais também, porque a bem dizer são filhos de alguém nosso, apenas não são os nossos. 
Mas será feita justiça ao dizermos que não são nossos?
Madrastas e padrastos que os receberam na sua vida não são uma peça de lego que se coloca e retira de quinze em quinze dias. 
Sejamos honestos, recebê-los como parte da pessoa que amamos (tardiamente achamos nós, porque se tivesse sido mais cedo eles seriam nossos filhos e pudessemos nós mudar isso éramos ainda mais felizes...admitam e deixem-se de tretas!), criar rotinas familiares, estar lá quando choram, quando riem, quando morrem de sono ou morrem de fome, esperar a sua chegada com planos para os dias seguintes, sentir a casa vazia quando partem...e ainda assim, correr o risco de ser apenas uma peça de lego móbil sem sentimentos de pertença. 
Na realidade, estas famílias modernas, que nascem como pãezinhos nos dias que correm, tendem a impor-se de forma mais difícil, têm todos de lutar muito mais para atingir o mesmo patamar de equilíbrio e afectos dados como adquiridos numa família das convencionais, onde os laços de sangue chegam e sobram para unir os seus membros. Lutam contra inseguranças e saudades, vivem numa constante conquista uns dos outros, gerem horários e deslocações geográficas como pilotos de fórmula 1, relativizam problemas, contam até dez em decrescente mais vezes do que seria coerente, comem hambúrgueres e sundays sem sentimentos de culpa porque o importante é estarem juntos e sonham acordados que tudo seria mais simples se se apaixonassem todos uns pelos outros exactamente no mesmo instante. Cronológicamente estas famílias nascem quando um pai e uma mãe se desapaixonam e se apaixonam novamente por outra pessoa que também poderá ser mãe ou pai, que por sua vez se desapaixonam também e de repente os filhos desses desapaixonados são convidados a apaixonar-se por alguém que não escolheram e a partilhar o quarto com alguém que está exactamente na mesma situação. Ninguém espera que isto seja simples, pois não?
Aos pais gostaria de lembrar que os filhos não são vossos, são do mundo. E no dia em que o mundo os presenteia com mais um laço, mais um afecto, um apego, um apoio quem sabe para toda a vida, era óptimo que entendessem que a vida está a ser estupidamente generosa com os vossos filhos. Há que agradecer e deixar que a vida siga, naturalmente. É imperioso permitir que os filhos desenvolvam afectos com outros. É sinal de carácter cultivar isso mesmo.
Às madrastas e padrastos fica-lhes bem ocuparem só e não mais do que o seu espaço. Esse espaço é difícil definir, mas torna-se mais fácil quando é definido em conjunto com o verdadeiro progenitor das crias.
Padrastos e madrastas não são mãe, nem pai. Não são amigos, esses estão na escola, no karaté, no hip-hop, mas também não são biblots meramente decorativos. Têm obrigação, apenas moral, de ser parte activa na formação e educação dos enteados, obviamente sem nunca colidir com o que já existia antes da sua própria existência na vida deles. E esta obrigação é apenas moral, porque afinal só está aqui quem quer!
Não insistam em arranjar outra denominação. São padrastos. São madrastas. O seu significado vale por tudo o que representam e tentar renomeá-los é retirar-lhe o seu significado como um todo e empacotá-lo em palavras insuficientes. É como se houvesse uma necessidade urgente em eliminar o seu significado penoso aprendido nas histórias infantis e revesti-lo de tudo o que é apenas aprazível. E então, é preciso recordar que a vida não são só rosas?
Pai e mãe também não são perfeitos. Também castigam, repreendem e nem sempre são inteiramente justos. Pois, mas o dicionário foi mais meigo com eles.
Na verdade, os padrastos e madrastas serão apenas aquilo que os enteados o permitirem. Poderão ser para sempre uns outsider ou gradualmente uns insider. São as crianças que o decidem. 
Contudo, convém lembrar que os enteados merecem ser felizes no seu papel, mas isso só é possível quando o seu papel de filho é vivido em plenitude, livre para escolher e amar sem perturbações adultas. E, ou eu muito me engano, o que todos queremos é que os nossos filhos sejam felizes, certo?


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