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Dez anos depois.



Papá, estamos a viver uma pandemia. 

Estou dentro de casa há vinte dias. Já senti tudo, papá! Medo, tristeza, pânico, saudade.
Já precisei de contar de forma decrescente dos vinte aos zero, algumas vezes. Na verdade, mais vezes do que aquelas que julguei precisar.

Ao fim de uma longa e forçada semana em casa, saí à rua pela primeira vez, por poucos minutos, para ir à padaria. A rua estava praticamente vazia, ouvia-se cada nota de um silêncio perturbador e difícil de explicar, o ar parecia suspenso, ameaçador. As poucas pessoas que vi, de rosto escondido numa máscara, não se olhavam de frente, os seus olhos fugiam dos olhos dos seus semelhantes. Estranhamente parecia que ninguém se queria encarar. Já é difícil não partilhar alegria, para quê fazer questão de partilhar tristeza?

A padaria parece um cenário de guerra, com barreiras que nos impedem de chegar ao balcão ou às mesas, com paredes de acrílico mal-amanhadas a separar quem quer pão de quem o quer vender. Vende-se apenas o que é básico. Acabaram-se os pequenos-almoços e lanches cheios de açúcar e meias de leite a entornar. 
Quando entrei, ninguém sorriu. Nem um discreto Bom Dia se ouviu. Acabou-se o barulho bafiento de gente amontoada a mastigar pastéis de nata e regueifa quente, desapareceu o som irritante do vapor da máquina do café, desapareceram as vozes das funcionárias a gritarem pedidos como se estivessem zangadas com o mundo. Só consegui ouvir a tristeza. Nunca imaginei que a tristeza tivesse som. Estava no rosto das únicas três pessoas permitidas dentro do estabelecimento. E uma delas era eu. O olhar de quem me serviu, quase não teve força para se descolar do chão, de quem estava ao lado, vi apenas um encolher de ombros que sem palavras me conseguiu claramente dizer “o que é que nos aconteceu, Meu deus?”. À saída, esperavam três ou quatro pessoas numa fila imaginária, cheia de vácuo entre cada um. Agora estamos assim, todos distantes, não porque não nos amamos, mas porque precisamos de nos salvar.

Papá, ainda não chorei, mas já travei as lágrimas demasiadas vezes. Mas pelo que tenho visto no Twitter, até homens feitos, daqueles de barba rija confessam que já acordaram a chorar. Parece-me que talvez o melhor é mesmo eu deitar cá para fora, antes que o medo me afogue e eu perca a compostura.

Sinceramente, nem me lembro se há dez anos, quando partiste, eu perdi a compostura. Aí, se calhar, teria sido aceitável e compreendido. Lembro-me apenas da compaixão com que me olharam os funcionários do serviço de urgência, lembro-me de me esconder de costas numa parede que fazia esquina e deixar que os joelhos falhassem. Lembro-me de me sentir verdadeiramente sozinha pela primeira vez na vida. Lembro-me de rezar e pedir misericórdia. Lembro-me de me levantar e seguir com a minha vida com o mundo às costas. O mundo dos vivos, daqueles que tanto precisariam de mim, mais do que nunca. Talvez por isso, nunca tenha perdido a compostura, porque na realidade não tive tempo. Não me foi dada essa benesse.

Dez anos depois, muito tempo por sinal, seguimos nestes dias, também eles sem benesses, reféns da nossa tentativa de sobrevivência, escravos de uma quarentena que parece não ter fim à vista, distantes uns dos outros porque o AMOR tem de ser maior que qualquer pandemia. E vai ser.




(VRS, Em Memória de um dia triste. 30.03.2010)














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