Fizeste-te pai porque eu pedi A tempo percebeste que me perderias senão fizesses de mim a mãe que sempre sonhei ser A meio da encenação, perdeste-te e desmascaraste a personagem premeditada. Afinal éramos só três: eu - a mãe, a filha e a decepção. A santa trindade idealizada na tua peça de teatro não resistiu. Escolhi voar mesmo a tempo da primavera. Eu, com a minha filha debaixo da asa. Acabou. O teu plano para me manter falhou. Nunca me perdoaste o dia em que a porta bateu nas tuas costas. Juraste castigo e vingança. Querias o tempo dessa filha dividido ao minuto. Quiseste substituir-me, dando as minhas tarefas a quem não tinha credenciais. Quiseste asfixiar-me de dúvidas, oxigénio e remorsos. Quiseste que eu morresse de saudades aos poucos, devagar como uma tortura. Escolheste pisar este coração de mãe, amaldiçoar a minha vida solitária, sem o que realmente me permitia viver. Roubaste-me a filha em todos os dias em que as minhas chamadas iam para a caixa-correio, em todas...
Na porta do frigorífico, podemos afixar a lista de compras, a lista das emoções, a contagem das perdas e a soma das lições de cada dia. Bem-vindo ao meu frigorífico!