Fizeste-te pai porque eu pedi
A tempo percebeste que me perderias senão fizesses de mim a mãe que sempre sonhei ser
A meio da encenação, perdeste-te e desmascaraste a personagem premeditada.
Afinal éramos só três: eu - a mãe, a filha e a decepção.
A santa trindade idealizada na tua peça de teatro não resistiu.
Escolhi voar mesmo a tempo da primavera. Eu, com a minha filha debaixo da asa.
Acabou. O teu plano para me manter falhou.
Nunca me perdoaste o dia em que a porta bateu nas tuas costas.
Juraste castigo e vingança.
Querias o tempo dessa filha dividido ao minuto.
Quiseste substituir-me, dando as minhas tarefas a quem não tinha credenciais.
Quiseste asfixiar-me de dúvidas, oxigénio e remorsos.
Quiseste que eu morresse de saudades aos poucos, devagar como uma tortura.
Escolheste pisar este coração de mãe, amaldiçoar a minha vida solitária, sem o que realmente me permitia viver.
Roubaste-me a filha em todos os dias em que as minhas chamadas iam para a caixa-correio, em todas as horas em que fazias questão de lhe esconder o paradeiro.
Impediste-me de ser mãe em todas as vezes que me alienaste da sua escola, da sua vida, dos seus estados febris, dos vómitos e agonias que escondeste.
Fizeste-me pagar o meu corajoso voo sem facas nem balas, talvez essas não tivessem doído tanto como o tempo roubado à minha maternidade.
Na vida nada é para sempre e um dia tudo muda. Na maioria das vezes, sem aviso.
A filha, a minha, escolheu voar.
Agora, vivo eu no ninho vazio, uns dia choro de orgulho, outros choro de saudade.
Mas, desta vez, não foste tu quem a afastou de mim.
Agora que sabes que estou sem ela no quarto ao lado, pousaste a espada de esgrima que usavas para me ferir. Agora, de nada te serve.
Agora, escolheste esquecê-la.
Soubesse eu que pai nunca serias capaz de ser, teria voado bem mais alto, bem mais longe, para a minha filha proteger.

Comentários
Enviar um comentário