Fizeste-te pai porque eu pedi A tempo percebeste que me perderias senão fizesses de mim a mãe que sempre sonhei ser A meio da encenação, perdeste-te e desmascaraste a personagem premeditada. Afinal éramos só três: eu - a mãe, a filha e a decepção. A santa trindade idealizada na tua peça de teatro não resistiu. Escolhi voar mesmo a tempo da primavera. Eu, com a minha filha debaixo da asa. Acabou. O teu plano para me manter falhou. Nunca me perdoaste o dia em que a porta bateu nas tuas costas. Juraste castigo e vingança. Querias o tempo dessa filha dividido ao minuto. Quiseste substituir-me, dando as minhas tarefas a quem não tinha credenciais. Quiseste asfixiar-me de dúvidas, oxigénio e remorsos. Quiseste que eu morresse de saudades aos poucos, devagar como uma tortura. Escolheste pisar este coração de mãe, amaldiçoar a minha vida solitária, sem o que realmente me permitia viver. Roubaste-me a filha em todos os dias em que as minhas chamadas iam para a caixa-correio, em todas...
Eu tive o privilégio de nascer em 1978. Não vi o meu pai ser perseguido pela PIDE, nem precisar de licença para ter um isqueiro no bolso, acessório imperioso para um fumador de cachimbo, e deixem que vos diga que era um cachimbeiro cheio de classe. Não conheci a censura na voz, na escrita ou nos gostos avant-garde para a época. Sempre que passei por escolas com duas portas de entrada, questionava os meus pais porque raio meninos e meninas não poderiam aprender e brincar juntos. A mim, nunca me obrigaram a cantar o Hino Nacional todas as manhãs antes de aula começar. (Bem, quanto a este detalhe, não seria mau de todo, talvez até se teriam evitado alguns embaraços no MotoGP em 2022...) Ainda convivi com o Jesus Cristo pregado à cruz na parede da sala de aula, mas apenas porque frequentei colégios católicos. Louvado seja o Senhor que me poupou de dar de frente todos os dias com a fotografia de Salazar. Eu pude usar bikinis desde o primeiro dia em que pousei os me...